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domingo, 10 de outubro de 2010

1000 visitas no blog /Entre a preocupação e a esperança

Em 12 de novembro de 2009 eu dava as boas vindas neste blog aos que estivessem interessados em compreender melhor o mundo e o Brasil. Pois onze meses depois o blog atingiu a marca de 1000 visitantes. É bem pouco, mas fico bastante feliz porque é simbólico e bonito. Para falar a verdade foi bem mais que isto pois só instalei o contador há seis meses. Mas, como dizem os magistrados “o que não está nos autos (do processo) não está no mundo". Portanto, oficialmente, atingimos 1000 visitas em 10/10/10, data igualmente simbólica.
Quero agradecer aos que me dão o prazer de acessar o blog e dizer que logo após as eleições retornarei com os textos analíticos sobre nosso mundo e suas contradições. Por enquanto estou imbuído da missão REPUBLICANA de ajudar este país a continuar mudando para melhor, de fazer as pessoas entenderem que por mais críticas que tenham a um governo, é sempre necessário compará-lo com os outros e verificar onde houve mais avanços e com base nisso tomar sua decisão, sendo o mais pragmático possível. Devemos nos perguntar sempre: Quero um país melhor para viver? Quero que meus descendentes vivam em um país desenvolvido, autônomo, que tenham uma vida plena de oportunidades? Se suas respostas forem SIM, então você, mesmo tendo inúmeras críticas ao governo Lula, não hesitará em votar em DILMA ROUSSEF no dia 31. Tenho a mais plena certeza de que ela possui todos os atributos necessários para governar bem este país e dar continuidade, melhorando, às políticas iniciadas por Lula. Políticas das quais nos últimos 5 anos ela foi a principal gestora, foi quem gerenciou tudo. Não se deixem levar pelas armadilhas sórdidas que a direita estúpida e golpista vem criando para tentar impedir a vitória de DILMA. Não aceitem a manipulação da grande mídia. Pensem apenas com suas cabeças, com suas consciências. Não deixem que outros pensem e decidam por vocês.
Mais uma vez peço desculpas por fazer campanha neste espaço, mas espero ser perdoado na medida em que vocês analisem que estou apenas pensando no futuro deste país, no futuro de vocês e no de seus descendentes. As minhas intenções são definitivamente as melhores. Como afirmou certa vez Fidel Castro Ruiz “A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ”.

Aproveitem a comparação abaixo para aprofundar suas análises.

CLIQUE NA IMAGEM DUAS VEZES PARA VER POR INTEIRO.

domingo, 26 de setembro de 2010

Porque voto em DILMA ROUSSEF

"Não há futuro! O que existe é o hoje, é cada dia. E a cada dia temos de dar o máximo pela nossa felicidade. A cada dia temos de nos superar. A cada dia temos de não sucumbir. A cada dia temos de crer em nossa importância, crer que somos fundamentais".
Marcio Azevedo

Estudo o Brasil há 30 anos. Comecei minha trajetória política em 1978, fazendo movimento estudantil secundarista e lutando pela anistia aos exilados e presos políticos da ditadura militar. Em 1979, sempre acreditando na luta por um mundo mais justo e solidário decidi ingressar no sacerdócio e me tornar padre. Em 1980 desisti do sacerdócio, ingressei na JOC, Juventude Operária Cristã e participei das discussões para a fundação do PT, Partido dos Trabalhadores. A JOC foi uma grande escola de formação histórico-política. A cada mês tinhamos reuniões dedicadas apenas a estudar e analisar a conjuntura política do Brasil e do mundo. Fazíamos seminários para entender o funcionamento da sociedade capitalista e para conhecer melhor a proposta do socialismo científico de Marx e Engels. Analisar o Brasil e sua trajetória desde a colonização até os dias de hoje tornou-se, para mim, parte do cotidiano. Quando finalmente optei por priorizar a militância partidária, tornei-me um dos cérebros do PT em São João de Meriti e no Estado do Rio. Juntamente com outro intelectual, Orlando Jr., era encarregado de fazer as análises de conjuntura para subsidiar os companheiros do partido e os documentos em que nosso grupo político se posicionava tanto em São João, como dentro do PT. Várias vezes viramos noites inteiras bebendo café e escrevendo estes textos. Tornei-me, como dizia Antonio Gramsci, um “intelectual orgânico”. Aliás, Gramsci (pensador italiano e fundador do PCI) é a minha referência teórica até hoje

Participei de todas as grandes lutas na Baixada Fluminense e no Rio de Janeiro durante a década de 80. Tinha um imenso orgulho de continuar lutando por tornar este um mundo melhor para todos. Organizamo-nos para lutar pelo saneamento básico para a Baixada Fluminense. Lutamos pelas DIRETAS JÁ em 1983/4. Lutamos por uma Assembléia Constituinte livre e soberana em 1985/6. Lutamos por uma Constituição democrática. Por causa disso fui a Brasília diversas vezes para fazer lobby, para pressionar os deputados e senadores a aprovar um texto constitucional que garantisse amplos instrumentos anti-discriminação, que garantisse a realização de uma reforma agrária e consolidasse a democracia nascente no país. Fomos derrotados em algumas propostas e vitoriosos em outras. Foi nossa luta que garantiu o instrumento constitucional da emenda popular. Foi graças a este dispositivo constitucional que surgiu o projeto de lei da FICHA LIMPA que tem causado tanto desespero aos políticos corruptos.

Participei como um dos coordenadores estaduais da campanha eleitoral mais bonita que este país já viu: a presidencial de 1989. Vislumbrando sempre um país melhor, trabalhei ativamente em todas as campanhas presidenciais do LULA. Me afastei da militância política a partir do momento em que a necessidade de sobrevivência, de construir um patrimônio mínimo, de cuidar melhor das minhas filhas se impôs. Mas não me afastei das minhas crenças, dos meus princípios. Estes sempre estiveram presentes e estão até hoje, em minhas aulas, em meu contato com os alunos. Continuo acreditando que podemos construir um país cada vez melhor.

E neste sentido, com a bagagem política que tenho, com o conhecimento que adquiri sobre este país, levando em conta tudo o que estudei e vivi até hoje, não consigo vislumbrar governo melhor na história do Brasil do que o governo de LULA. Ao longo da história republicana tivemos em Vargas um visionário que lutou e trabalhou muito para que o Brasil se desenvolvesse. E tivemos em LULA, um ex-retirante nordestino, ex-metalúrgico um líder profundamente identificado com as mazelas do povo, que conheceu a miséria, a fome, a falta de tudo. Conheceu e soube nunca se distanciar disto. Conheceu e quando finalmente se elegeu presidente sabia exatamente a quais segmentos da população seu governo iria dar prioridade. JK e os militares pensaram um Brasil com um mercado consumidor em torno de 30% da população. LULA pensou e realizou, num mercado consumidor amplo, composto pela maioria da população. Seu sonho é que todos os brasileiros venham a ser consumidores. Obviamente isto ainda não é possível, pois ele só teve oito anos de mandato.

Agora pensemos: se tivermos mais uns dois ou três governos com a mesma mentalidade e os mesmos objetivos de LULA, por volta de 2020 o Brasil já estará inserido entre os países desenvolvidos deste planeta. E o que é melhor, um padrão de desenvolvimento inclusivo, que tem a distribuição de renda como meta, que inverte as prioridades tradicionais dos mandatários deste país. E, o que é melhor ainda, capaz de fazer tudo isto aumentando os lucros dos capitalistas brasileiros. Ou seja, o Brasil vem sendo palco de um dos mais importantes laboratórios político-econômicos das últimas décadas, indo totalmente na contramão do neoliberalismo e de suas doutrinas excludentes e concentradoras de renda.

Por tudo o que expus, porque hoje, olhando para trás, vejo que fui parte da História recente deste país. Não preciso ler sobre o que ocorreu no país nos últimos trinta anos pois eu estava lá, fiz história, sou parte desta história. Hoje sinto um imenso orgulho de ter participado de tudo o que ocorreu de importante neste país nas últimas três décadas.

Não sou acrítico em relação ao governo LULA. Ao contrário, sei que houve falhas sérias, mas sei também que muito do que não se fez foi por absoluta impossibilidade até mesmo orçamentária. O Congresso Nacional também não ajudou muito pois ali foram barradas diversas iniciativas do Executivo. E mesmo com as falhas e as singularidades/impossibilidades, não tenho dúvida em afirmar que LULA fez um governo espetacular.

Por tudo o que expus, porque sei que sou uma pessoa conceituada, proba, honesta. Porque sei que muitos admiram minha trajetória é que humildemente peço a todos os meus amigos, todos os meus alunos, todos os que me conhecem e sabem dos valores em que acredito que votem em DILMA ROUSSEF para a presidência deste país.

DILMA ROUSSEF é a garantia de continuidade de tudo o que Lula soube fazer. DILMA encarna a possibilidade de continuarmos no rumo do desenvolvimento econômico com justiça social. Acredito piamente que ela fará um excelente governo, por isto estou empenhando minha trajetória, minha palavra e minha imagem na defesa de sua candidatura à presidência deste país que tanto amo.

Um forte abraço a todos e até a VITÓRIA!!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

AS REAIS MOTIVAÇÕES DE SERRA

Estou publicando abaixo a introdução do livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., publicada no site Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, em junho deste ano. Pelo que se percebe foi a existência deste livro e a iminência de sua publicação que levou a campanha de José Serra a deflagrar a “operação quebra de sigilo”(este nome é invenção minha), bastante bem repercutida pela mídia oligarca (FSP, O Globo, Veja, Estadão), buscando “matar dois coelhos com um só tiro”. Ou seja, além de tentar imputar a responsabilidade das quebras de sigilo à campanha de Dilma, tentando desmoralizá-la para que Serra voltasse a subir nas pesquisas, buscava-se atingir diretamente o jornalista Amaury Ribeiro Jr. afetando sua credibilidade e demonstrando que seu livro seria um conjunto de invencionices, fruto de quebras ilegais de sigilos fiscais. A verdade é que este é um movimento desesperado de José Serra que já tem absoluta certeza da derrota em 3 de outubro e busca salvar-se de alguma forma. O que fica claro é que Serra não só terá um enterro político no dia 3 de outubro mas, quando da publicação do livro terá também o enterro da sua (falsa) moralidade.

É preciso lembrar que Serra é o mestre desse tipo de jogada suja, como se pode ver abaixo:

1- O caso Lunus, da dinheirama que foi encontrada no escritório de Roseana Sarney. Roseana Sarney começara a crescer vigorosamente nas pesquisas eleitorais que antecederam a escolha do candidato do governo em 2002. Em determinado dia seu escritório de campanha foi invadido pela Polícia Federal e Ministério Público, acompanhados de jornalistas - especialmente da TV Globo. Posteriormente, constatou-se que tanto do lado da PF quanto do MP, estavam envolvidos funcionários públicos diretamente ligados ao pré-candidato José Serra. A exposição do dinheiro encontrado liquidou com a candidatura de Roseana e selou o rompimento da aliança PSDB-PFL.

2- O caso dos “aloprados”. Em 2006, no final do primeiro turno, alguns petistas (imbecis, diga-se de passagem) foram flagrados tentando comprar um dossiê para prejudicar tucanos na eleição, com as violações de sigilo fiscal de políticos do PSDB. O tal dossiê era mais uma armação do grupo de Serra, como se constatou posteriormente. Na época, a exposição da dinheirama levada pelos petistas (imbecis, repita-se) no Jornal Nacional, dois dias antes da eleição (a Globo inclusive deixou de dar destaque à principal notícia do dia, o grande desastre com o avião da TAM em São Paulo), levou muita gente a rever seu voto e ajudou a levar a disputa entre Lula e Alckmin para o segundo turno.

3- A operação “Pó para, governador”. Em fevereiro de 2009, quando Serra e Aecio Neves (então governador de MG) disputavam a indicação para a presidência pelo PSDB, um articulista desconhecido escreveu um artigo com o título acima para a Folha de São Paulo. O artigo era um amontoado de idiotices, mas o que importava mesmo era o título. A palavra “pó”, caiu como uma bomba no colo de Aécio Neves indicando que o pessoal de Serra estava disposto a jogar muito sujo (como sempre) nos meses seguintes. Seguiram-se, hoje sabemos, as violações do sigilo de Eduardo Jorge, Verônica Serra e outros, nos meses seguintes. Bem, há várias versões circulando na internet a este respeito. Poderia ser o grupo de Serra, para responsabilizar Aécio, poderia ser o grupo de Aécio, para se defender de Serra. E como o material estava à mão, porque não usar contra Dilma neste momento de desespero?

Não é por acaso que muita gente está receosa com a possibilidade bastante concreta de a Globo montar mais alguma sujeira grande para a sexta-feira, 1º de outubro, visando atingir a candidatura Dilma. Neste quesito a Rede Globo tem mestrado e doutorado. Remember a edição do debate entre Lula e Collor, um dia antes da eleição em 1989 e o que já foi citado acima.

Leia abaixo o que constará do livro de Amaury Ribeiro, publicado no site de PHA:

Livro desnuda a relação de Serra com Dantas. É por isso que Serra aloprou
Publicado em 04/06/2010

Os porões da privataria

Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do país, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três dos seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, tem o que explicar ao Brasil.

Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marín Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marín. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como (Marin) é conhecido, precisa explicar onde obteve US$ 3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil …

Atrás da máxima “Siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.

A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista – nomeado quando Serra era secretário de planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$ 448 milhões (1) para irrisórios R$ 4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC. (Ricardo Sergio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m… “, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA).

Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico (2).

O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$ 3,2 milhões no exterior através da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova York. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises.

Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.
A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$ 17 mil (3 de outubro de 2001) até US$ 375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$ 1,5 milhão.

O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$ 404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, através de contas no exterior, US$ 20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.

O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, entre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.

Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do país para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.

Financiada pelo banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$ 5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$ 10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas tem o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.

Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$ 7,5 milhões em ações da Superbird. com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A…Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.

De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante o Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no país. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia através de sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no país.

Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações — que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade” conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” — foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e as contas sigilosas da América Central ainda nos anos 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenceria…

Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$ 410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.

(1)A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$ 140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$ 3,2 por um dólar.
(2)As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.

Obs.: Se ficou um pouco dificil de entender, não se desespere, tive de ler duas vezes para consegui-lo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Porque não creio. No que creio.

Marcio Azevedo

É muito estimulante, portanto complexo, viver sem crenças metafísicas em uma sociedade em que 93%, segundo o IBGE, tem religião e, portanto, acreditam em divindades. Face a esta postura incrédula, sou constantemente inquirido sobre porque não creio e, afinal, no que creio. Refletindo sobre isto, conduzo meu raciocínio em uma direção: porque as pessoas acham que se não acredito em deus, provavelmente não acredito em nada?

Ora, não sou niilista. O niilismo é uma visão de mundo que despreza todas as crenças, que vê o mundo com olhos de derrota, que crê –e isto é um baita paradoxo- na inutilidade do ser e das coisas. Não sou niilista porque creio em uma série de valores racionais; porque acho que o ser humano é absolutamente capaz de evoluir intelectualmente e tornar melhor o espaço em que vive. Aliás, em meu primeiro livro deixo bastante claro que só me é possível existir porque creio. Porque creio e decidi que a função primordial de minha existência seria lutar para tornar o mundo um lugar melhor. Óbvio que isto é um tipo de pensamento bastante piegas sob alguns aspectos. Mas, acredito que é assim mesmo que devo me expressar. Todos os dias, quando acordo, vou trabalhar, me relaciono com as pessoas, faço-o acreditando que posso fazer diferença, que sou capaz de contribuir para o desenvolvimento do pensamento daqueles com quem convivo e que é possível ajudar as pessoas a construir capacidade de crítica em relação a tudo o que os cerca. Afinal, isto sempre é uma escolha a partir do momento em que as pessoas são apresentadas ao caráter costumeiro, habitual, banalizado das suas crenças e posturas diante do mundo. Quando as pessoas conseguem enxergar que as coisas nas quais elas acreditam em nenhum momento foram racionalizadas, que elas o fazem apenas porque “alguém disse” que isto era o certo, que seus pais ensinaram que deveriam pensar dessa ou daquela forma, descortina-se um novo mundo para elas. Um mundo repleto de possibilidades, de potencialidades e, claro, de barreiras e impedimentos, também. Mas a partir daí, cada pessoa conquista o direito de escolher as suas crenças. De decidir individualmente no que quer acreditar nos próximos anos de sua existência. Sem dúvida nenhuma esta pessoa poderá consagrar e continuar as crenças de seus pais, poderá divergir e escolher outro conjunto de crenças, poderá descrer de tudo e de todos, poderá construir um sistema de crenças apenas racionais, ou de crenças racionais mescladas com grande espiritualidade. E a partir do momento em que tiver construído esta criticidade, esta pessoa terá todas as condições para tornar melhor o mundo em que vive. Pode até optar por não fazê-lo, mas sempre terá consciência de que fez uma escolha, de que optou pelo individualismo e, se tiver coragem, sempre assumirá isto diante dos outros. Então, todos os seus atos, sempre serão fruto de um ato consciente, não-manipulado. Mas se a pessoa escolher tornar melhor o mundo em que vive, mesmo que isto se dê em um âmbito apenas doméstico, então, sem dúvida alguma o mundo será um lugar mais interessante para viver a partir daquele momento.

Caso consiga contribuir para que meus educandos atinjam este estágio de criticidade, independente de suas escolhas, seja pelo individualismo, seja pelo que chamo de coletivismo, fico em paz, com a consciência tranquila de que realizei o que me propus. Devo afirmar, apenas para reforçar, que o ideal é que as pessoas assumam a segunda postura, que sempre espero isto de cada ser com quem convivo, mas não tenho direito de absolutizar nada, de ser autoritário e tentar impor o que acho certo a ninguém.

Por causa disso vivo em paz comigo mesmo. Porque as crenças que possuo foram bastante racionalizadas e sistematizadas ao longo dos últimos trinta anos. Só para constar e não deixar nada obscuro demais neste texto, sinto-me na obrigação de pontuar minhas crenças mais profundas.

Acredito no ser humano, em sua capacidade infinita de mudar tudo, de se adaptar a quaisquer circunstâncias. Acredito em justiça como uma construção de regras coercitivas, fundamentais para garantir a convivência entre díspares. Acredito na ética das relações, na capacidade de cada um ser honesto diante de si mesmo e do outro, mesmo e principalmente quando erra. Pois ser ético não é acertar sempre, é fundamentalmente reconhecer que errou, que poderá errar de novo, mas que quer tentar evitar novos erros. Acredito com todas as forças do meu intelecto no respeito que devemos ter para com cada ser vivo. Quando respeitamos o outro, independente de sua visão de mundo, de suas idiossincrasias e de suas divergências conosco, tenho absoluta certeza de que estamos contribuindo para nosso próprio crescimento intelectual, para tornar mais saudáveis as relações e para deixarmos um legado positivo ao mundo. Quando respeitamos o outro nos sentimos bem e sabemos que a recíproca é verdadeira. Acredito na rebeldia porque é um motivador de mudanças, é um impulsionador do mundo, é um antídoto à acomodação, é uma bela forma de passar a vida sobre a terra. Acredito na felicidade e no bom humor porque são chaves para uma vida mais leve, para viver sempre com prazer, para enxergar melhor as contradições de cada um. Para nunca se desesperar, mesmo quando tudo parece perdido e sem sentido.

Não acredito em divindades, em deuses, santos, milagres e quaisquer outras coisas inventadas pela imaginação dos seres humanos. O homem comum necessita de crenças metafísicas, necessita de uma potestade onipresente, onisciente e onipotente pois tem medo de estar completamente abandonado neste imenso universo. Pois tem medo de, totalmente livre para fazer o que bem quiser, dar vazão aos seus instintos mais recônditos, mais despudorados, de libertar mister Hyde, o “monstro” que habita cada ser. Então, para o homem comum deus é uma espécie de superego, sempre a postos para tolhir as ações instintivas do id e construir o equilíbrio do ego*. Este deus é também uma companhia, um verdadeiro amigo de todas as horas. É também uma tábua de salvação para as horas de desespero espiritual ou material. Quando tudo está muito ruim, acreditar que Ele oferecerá ajuda e mostrará um caminho é fundamental para continuar vivendo.

Descri porque analisei histórica e profundamente a trajetória do homem sobre a terra. Se voltarmos ao passado mais distante encontraremos nossos ascendentes vivendo em estado de natureza, cultivando seus medos e sem nenhuma compreensão sobre os fenômenos naturais. Esta é a situação ideal para o surgimento da “idéia de Deus”. Quando as pessoas não entendem absolutamente nada e não possuem o conhecimento, voltam-se para o sobrenatural que, sem necessidade de explicação explica tudo. Basta que a pessoa creia e pronto. Mais tarde, quando as sociedades foram se tornando mais complexas, as religiões passaram a ser usadas para “civilizar” as pessoas, passaram a ser agentes coercitivos que, através de regras e doutrinas, instruíam as pessoas a não fazerem certas coisas, a não tomar certas atitudes pois isto agradaria ao seu deus. Caso este viés não fosse suficiente, a ameaça de um pós-vida de tortura eterna teria de funcionar para manter as pessoas sob controle. Pronto, estava inventado o inferno e seu proprietário, o esperto e cruel demônio. E para garantir que ele nunca possuísse mais poder do que Deus, o ocidente inventou que ele não passava de um ex-anjo (portanto, criado por Deus) que havia pecado e “caído”. Como foi visto que este tipo de manipulação das pessoas funcionava, mais tarde os reinos, impérios e, posteriormente, os Estados-Nação, passaram a usar a religião como forma de controle social, para manter as pessoas pacatas, ordeiras e acomodadas, o que ocorre até hoje. Fica claro então que deus, doutrinas e todo o aparato que acompanha esta visão de mundo foram devidamente inventados pelos seres humanos, primeiro para aplacar seus medos; em seguida para manter a ordem; e, finalmente para controlar a sociedade e sustentar imensos aparatos burocráticos compostos por templos, sacerdotes, despesas, salários etc.etc. No fim das contas tudo isto é perfeitamente dispensável.

Então, diante dessas conclusões sobre a origem da crença na divindade, posso afirmar com tranquilidade que não preciso de Deus para existir, para continuar vivendo. Posso viver com minhas crenças racionais, aceitar minhas limitações, buscar uma vida plena sem precisar olhar o mundo como um espaço pertencente a um ser supremo. Vivo sem pai biológico há 28 anos e não sucumbi. Sem mãe biológica há 26 anos; portanto, sou perfeitamente capaz de prescindir de um pai celestial. Recentemente recebi um e-mail de um ex-aluno, Carlos Augustus, em que ele afirma que assumiu seu ateísmo e não esquece uma frase que ouviu de mim. Faço questão de reproduzir: “Há, aproximadamente, um ano o senhor indicou-me ler e acompanhar o trabalho do Doutor Richard Dawkins e gostaria de dizer a você que gostei muito do trabalho dele e estou mergulhando fundo na filosofia ateísta, pois como o senhor mesmo disse, lembro-me até hoje dessas palavras: ‘Quando o ser humano perde o medo e decide assumir que está sozinho para enfrentar seus problemas, ele vira ateu; não precisa mais de Deus.’
Acho que se não fossem tais palavras eu ainda seria um "ateu dentro do armário" como diz Dr. Richard Dawkins”.

Concluindo de forma bem humorada: defendo minha privacidade e meus momentos de solidão com unhas e dentes e seria horrível crer em um ser que tudo vê (onisciente) e que está em todos os lugares (onipresente). Estou fora.


* Id, ego e superego são conceitos da psicanálise freudiana. Explicando de forma simples, o id é a criança sem limites, sem conhecimento de regras, livre; o ego é a consciência, é como nos mostramos para os outros; o superego é a capacidade coercitiva, é a imposição de limites.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Atividade Industrial e perspectivas do Rio de Janeiro

Marcio Azevedo

1- Primórdios

Durante toda a metade do séc. XIX, os impedimentos para o processo de industrialização no Brasil partiam diretamente da Inglaterra, visto que o país era um bom mercado consumidor para seus produtos. Desde 1810 através do Tratado de navegação e comércio, as relações com a Inglaterra haviam sido priorizadas. Foi somente a partir de 1844, com a Tarifa Alves Branco, que elevou as taxas médias de importação para 44%, e a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibiu o tráfico de escravos, que tivemos o primeiro impulso no processo de industrialização no país.

O processo de industrialização do Brasil teve início no Rio de Janeiro através do visionarismo do Barão de Mauá. Em 1846 o barão fundou o Estabelecimento de Fundição e Companhia Estaleiro da Ponta da Areia, que no ano seguinte já multiplicara por quatro o seu patrimônio inicial, tornando-se o maior empreendimento industrial do país, empregando mais de mil operários e produzindo navios, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, além de artilharia, postes para iluminação e canos de ferro para águas e gás. Deste complexo saíram mais de setenta e dois navios em onze anos, entre os quais as embarcações brasileiras utilizadas nas intervenções platinas (leia-se Guerras) e as embarcações para o tráfego no rio Amazonas. O estaleiro foi destruído por um incêndio em 1857 e reconstruído três anos mais tarde. Faliu de vez quando a lei de 1860 isentou de direitos a entrada de navios construídos fora do país. Nas décadas seguintes, outros empreendimentos foram surgindo, em sua maioria voltados para a produção de bens não-duráveis e semiduráveis tais como dentrifícios, sabões, bebidas, fumo, alimentos, tecidos, roupas e calçados, destacando-se também a indústria moveleira (bens duráveis). Uma das mais importantes fábricas do período foi a CIA PROGRESSO INDUSTRIAL, uma das primeiras indústrias têxteis do país, fundada em 1889 e situada em Bangu. Data também do fim do séc. XIX a FUNDIÇÃO PROGRESSO, na Lapa, que produzia fogões e cofres.

2- O século XX

Foi no decorrer das primeiras décadas do século XX que a pioneira indústria carioca teve sua dinâmica alterada, perdendo a liderança para São Paulo e passando a ocupar a segunda posição no conjunto da produção nacional, principalmente em função dos lucros excedentes gerados pelas exportações de café por parte dos produtores paulistas. A queda da participação relativa do Rio de Janeiro no cenário industrial do País foi, porém, acompanhada por uma diversificação na produção local, onde se destacaram as indústrias metalúrgicas, de minerais não metálicos, química e farmacêutica, bebidas, editorial e gráfica, além da construção civil.

Conquanto ainda fosse expressivo o peso dos ramos de bens de consumo imediato, os tradicionais produtores de tecidos, vestuário e calçados, já sobressaíam os fabricantes de bens intermediários e até mesmo de bens de capital.

A partir da década de 1930, e integrando o processo de diversificação, um outro fenômeno marcou a história da indústria do Rio de Janeiro: o deslocamento espacial das unidades produtoras, ou seja, o abandono de fábricas anteriormente localizadas nas áreas do centro, zonas sul e norte da cidade, e sua instalação em novas localidades da então capital do Brasil. Dentre os fatores que teriam promovido tal movimentação, se destacavam: o progressivo crescimento da cidade; o aumento nas dimensões tanto das empresas quanto das fábricas; a busca de novos mercados consumidores; alterações nos meios de transportes e nos fluxos de energia, além de mudanças tecnológicas da própria indústria. Uma das direções seguidas por esse deslocamento foi através da abertura de novas unidades na periferia da cidade ou em áreas satélites do Rio de Janeiro. Essas mudanças levavam em conta tanto o crescimento interno das fábricas quanto a busca de terrenos mais baratos tendo em vista a valorização de certas áreas da cidade em virtude de obras de urbanização empreendidas pela municipalidade. Além disso, a construção da CSN no Vale do Paraíba, em Volta Redonda (inaugurada em 1946), atraiu inúmeras novas plantas industriais para a região, tanto do setor metalúrgico, quanto do setor de bens de consumo. Além do mais, a abertura da atual BR-116 (Via Dutra), inaugurada em 1951, e da Avenida Brasil, em 1946, foram fatores fundamentais de espalhamento das indústrias, tendo a Baixada Fluminense sido bastante beneficiada por este processo. A Via Dutra é considerada a rodovia mais importante do Brasil, não só por ligar as duas metrópoles nacionais, mas bem como atravessar uma das regiões mais ricas do país, o Vale do Paraíba e ser a principal ligação entre o Nordeste e o Sul do Brasil. A Avenida Brasil atravessa 28 bairros, fazendo importantes ligações: com a BR-040 (Rio-Belo Horizonte), a Via Dutra e a BR-101 tanto no sentido norte (direção Espírito Santo), quanto no sentido sul (Rio-Santos).

Na década de 60, tentando retomar parte do dinamismo perdido pela atividade industrial na Guanabara (atual município do Rio de Janeiro), o Governador Carlos Lacerda criou o distrito industrial de Santa Cruz, atraindo empresas como a Cosigua (Grupo Gerdau), White Martins e a Casa da Moeda do Brasil, entre outras. Lacerda criou também o distrito industrial da Avenida Brasil.

3- A decadência

A partir da segunda metade da década de 70, o Rio de Janeiro entrou em um processo de decadência econômica bastante acentuada. Entre as causas desse processo podemos apontar:
a) Transferência da capital para Brasília e não-realização dos investimentos prometidos pelo governo federal;
b) A criação do estado da Guanabara, que deixou o estado do Rio completamente órfão de inúmeros recursos:
c) A transferência para Brasília de inúmeros órgãos federais, esvaziando parte da economia do estado;
d) A crise econômica internacional que se arrastou por boa parte da década de 80, com reflexos profundos e duradouros na economia brasileira;
e) O elevado endividamento externo do país e dos estados, maximizado pela subida dos juros internacionais, a partir de 1979;
f) As sucessivas más administrações, sem projetos concretos e de longo prazo para o estado.
g) O arrocho salarial da classe média, a elevação do desemprego e o declínio na formação profissional;
h) A decadência da Indústria naval e a privatização da navegação de cabotagem;
i) A favelização excessiva, a expansão do crime organizado e a precarização de áreas como a Zona Norte do município do Rio.

Como resultados concretos, durante vários anos o PIB foi encolhendo, indústrias foram fechando as portas e o setor de logística, igualmente afetado, foi perdendo pujança, com a falência de dezenas de empresas. Pode-se afirmar que o Estado não soçobrou totalmente devido ao início e à posterior expansão das atividades ligadas ao petróleo na região Norte Fluminense, que atraíram inúmeras empresas de suporte para a região, e até hoje rendem royalties vultosos para o estado e para mais de metade dos municípios.

4- A retomada

A recuperação só começou, ainda que timidamente, na segunda metade da década de 90, com a construção da Volks caminhões em Resende (comprada pela MANN, em 2009). Daí para frente, outras plantas industriais foram sendo atraídas aos poucos para o estado. No entanto, foi a partir de 2003 que o governo federal começou a tomar iniciativas no sentido de revitalizar de vez o parque industrial do Rio, levando em conta suas perspectivas de, a médio prazo, estimular o crescimento industrial do país. O Rio entrou na lista de prioridades por seu significado histórico, por ser o segundo pólo industrial do país e pela localização privilegiada, além de possuir uma boa infra-estrutura e a maior parte das reservas de petróleo do Brasil. Mesmo com as dificuldades de relacionamento com a tacanha governadora, vários projetos foram elaborados. A partir de 2007, em função da visão de longo prazo do novo governador, uma série de projetos começaram a ser implementados.

Atualmente, há inúmeros projetos industriais nos mais variados estágios de implantação, e as perspectivas são de que nos próximos 4 anos o Rio de Janeiro reafirme sua importância histórico-econômica no cenário nacional. Vejamos então, alguns dos setores industriais do estado, alguns dos projetos em implantação e dados econômicos do estado.

A- Atividades industriais implantadas e em implantação

O setor mais importante é o petrolífero, pois gera a maior parte das receitas seja através dos impostos e dos royalties, seja devido às exportações. A sede da PETROBRAS fica no Rio, além da REDUC, dos campos exploratórios de gás e petróleo, das novas bacias do pré-sal e do COMPERJ (Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro) em Itaboraí, que já está em construção. Além disso, há a refinaria de Manguinhos e o Pólo Gás-Químico de Duque de Caxias.

Outro setor forte é o sidero-metalúrgico. Além da CSN, tradicional siderúrgica de Volta Redonda, a COSIGUA, na Zona Oeste do município do Rio é uma importante siderúrgica com base em sucata. Recentemente o grande conglomerado alemão Thyssen Krupp, associado à CVRD inaugurou uma importante siderúrgica (CSA) em Santa Cruz, com investimentos de mais de 8 bilhões. Em Resende e Porto Real há um complexo metalúrgico graças às fábricas da MANN Caminhões e da PEUGEOT-CITRÖEN, pois em função dessas duas, várias empresas parceiras ali se instalaram. Além disso, ao longo da via Dutra, principalmente na Baixada Fluminense há várias metalúrgicas.

A Baixada também vem se notabilizando devido ao setor de cosméticos que cresceu consideravelmente nos últimos anos. O Rio concentra várias grandes empresas do segmento como L’Oreal, Embeleze, Niely e Suissa. Somente Nova Iguaçu possui cerca de 30 empresas de cosméticos.

Empresas de vários segmentos têm-se instalado em Duque de Caxias, tais como o Jornal O Globo e o Carrefour, aproveitando a privilegiada posição do município, próximo das principais rodovias brasileiras: Linha Vermelha, Linha Amarela, Rodovia Presidente Dutra, Rodovia Washington Luiz e Avenida Brasil, além da proximidade do Aeroporto Internacional Tom Jobim e a distância de apenas 17 km do Centro do Rio, levando seus produtos facilmente para grandes centros consumidores: São Paulo, Minas Gerais e Sul do Brasil. O maior parque industrial do Rio de Janeiro fica no município, tendo empresas cadastradas como Texaco, Shell, Esso, Ipiranga, White Martins, IBF, Transportes Carvalhão, Sadia, Ciferal, entre outras. No cadastro industrial da Firjan, Duque de Caxias ocupa a segunda posição em número de empregados no Rio de Janeiro e a terceira em número de estabelecimentos, atrás apenas da própria capital e de Petrópolis.

Em São João da Barra, norte do estado, está sendo construído o complexo do Porto do Açu, um empreendimento da LLX logística. Tal empreendimento irá dinamizar toda a região, gerando empregos e levando desenvolvimento econômico. Fica próximo aos campos de petróleo offshore nas Bacias de Campos, Santos e do Espírito Santo. Terá seis braços de atracação para navios graneleiros e quatro braços de atracação para contêineres, produtos siderúrgicos, carga geral e embarcações de apoio a atividades offshore. Na retroárea do complexo será construída uma Zona Industrial, com uma área de 7.800 hectares, projetada para abrigar um pólo industrial que incluirá: um terminal para minério de ferro, plantas de pelotização, usinas termoelétricas, um complexo siderúrgico e um pólo metal-mecânico, para atender às demandas das indústrias de petróleo e bens de capital, unidades petroquímicas, refinarias, indústrias cimenteiras e pátios para armazenagem de granéis e carga geral. O projeto também inclui centros de distribuição e consolidação de cargas, instalações para embarcações de apoio a atividades offshore, montadoras de automóveis e clusters de processamento de rochas ornamentais.

O Rio de Janeiro é hoje o terceiro exportador de rochas ornamentais do país. As regiões norte e noroeste do estado possuem condições amplamente favoráveis para ampliação desse setor. Outro setor importante no Rio: o estado sedia 95% da produção de lentes para óculos no mercado brasileiro.

No Rio de Janeiro estão as duas únicas usinas nucleares do país e a terceira já está em fase licitatória. Angra 3 terá potência elétrica de 1.350 MW. Somada às outras duas unidades (Angra 1 e Angra 2) produzirá energia suficiente para suprir uma cidade como o Rio de Janeiro. Ou seja, o Rio de Janeiro é o principal pólo energético do país pois congrega petróleo, gás e energia nuclear.
O setor naval voltou a crescer. Após a derrocada durante os governos Sarney/FHC, quando foi totalmente sucateado, o setor voltou a produzir, principalmente devido às encomendas de PETROBRAS que orientada pelo presidente Lula, voltou a encomendar plataformas e navios no país. Também agregado à Petrobras, o setor de produção de peças para exploração de petróleo vem crescendo bastante no estado. De olho na grande demanda de tubos que serão necessários para tirar do papel os projetos da petrolífera, a alemã Schulz já iniciou a construção de sua terceira unidade no Brasil. A nova fábrica será instalada no mesmo terreno em que estão as outras duas plantas, em Campos, na Região Norte do estado. O Rio conta com 648 empresas fornecedoras da cadeia de petróleo e novos investimentos estão sendo planejados para os próximos anos.

Há inúmeras outras empresas atuando e planejando novos investimentos como é o caso da gigante francesa Michellin que inaugurou mais uma fábrica no Rio, a Souza Cruz, o setor farmacêutico, a Xerox, o setor cimenteiro, o setor cervejeiro, entre dezenas de outros. Seria muito cansativo ficar citando todas as iniciativas.

Para contribuir com este ciclo de desenvolvimento econômico-industrial do Rio de Janeiro o governo federal está construindo em parceria com o governo estadual o Arco Rodoviário do Rio de Janeiro. O Arco Rodoviário é uma das obras mais importantes para o desenvolvimento do estado, pois vai estruturar toda a malha rodoviária da região metropolitana. Cinco grandes eixos rodoviários serão conectados por meio do empreendimento: A BR-101/Norte (Rio – Vitória), BR-116/Norte (Rio – Bahia), BR-040 (Rio – Belo Horizonte), a BR-116/Sul (Rio – São Paulo) e a BR-101/Sul (Rio – Santos). A extensão total de nova rodovia construída é de 95,9 quilômetros, sendo 25 sob responsabilidade do DNIT e 70,9 quilômetros pavimentados em convênio com o Estado do Rio de Janeiro. Somando esses segmentos ao trecho já existente, o Arco terá 145 quilômetros de extensão. Quando concluído, ele vai eliminar o conflito entre o tráfego de carga e o trânsito do Grande Rio, facilitando o acesso ao Porto de Itaguaí e contribuindo para tornar menos penosa a migração pendular dos trabalhadores da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Para finalizar é preciso sinalizar que este artigo tentou mostrar um pouco do histórico das atividades industriais do Rio, e por isto mesmo não teve a intenção de mostrar todo o escopo do processo econômico do Estado. É preciso levar em conta que se o setor primário não tem grande importância para a formação do PIB estadual, o setor terciário é o maior formador do PIB. Este não foi abordado, mas se pensarmos a economia do estado como um todo podemos perceber que está no terciário a grande chance de o Rio de Janeiro dar um salto espetacular em termos econômicos. Teremos a realização da Copa do Mundo de futebol em 2014 e o Rio sediará os Jogos Olímpicos de 2016. Isto significa que setores como o turismo, o comércio e os serviços de uma forma geral terão de passar por incríveis mudanças nos próximos anos. Ou seja, as perspectivas de expansão econômica do estado do Rio de Janeiro são absolutamente impressionantes. A geração de empregos ficará por muito tempo na casa das centenas de milhares e o setor educacional terá de atender pelo menos uma parcela significativa desta demanda. Obviamente que haverá necessidade de importação de trabalhadores quer de outros estados, quer de outros países como já vem ocorrendo.

Fica claro que o Rio finalmente voltou a ser um grande estado, que está retomando sua posição de destaque na federação.

B- Alguns dados:

ECONÔMICOS
-PIB: R$ 419 bilhões (2009 – IBGE)
-PIB per capita: RS$ 26.250,00 (2009 – IBGE)
-% do PIB nacional: 13,0% (2009 – IBGE)

ENERGIA
-Produção de Petróleo: 1,6 milhão de barris/dia (82% da produção nacional)
-Produção de Gás: 24 milhões de m3/dia (41% da produção nacional)
-Energia Elétrica: capacidade instalada de 7.400 MW

EMPREGO E RENDA
-Taxa de Desemprego: 7,0% (2010 - IBGE)
-Rendimento Médio do Trabalho Principal: R$ 1.444,00 (MAIO-2010/IBGE)

BALANÇA COMERCIAL
-Exportações: US$ 6,2bi (1º quadrimestre/2010)
-Importações: US$ 4,4bi (1º quadrimestre/2010)

sábado, 3 de julho de 2010

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS? NÃO, OBRIGADO.

Para alguns alunos e amigos eu havia expressado minha opinião sobre a seleção e suas perspectivas nesta Copa do Mundo e por isto o que escreverei adiante não será surpresa. Para outros parecerá que estou me aproveitando do momento, mas a verdade é que nunca acreditei que ganharíamos este título. Cheguei a me indispor com alguns amigos que me consideraram pouco patriota, o que é verdade. Sou NACIONALISTA, não patriota. O “patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, como bem expressou Samuel Johnson. Ou, como afirmou George Bernard Shaw “O mundo jamais será tranquilo enquanto não se extinguir o patriotismo da raça humana”. Como estes pensadores, acho o patriotismo uma das maiores idiotices jamais inventadas. Boa parte das guerras, fratricidas ou não, teve o patriotismo como mote inspirador. Os soldados, invariavelmente são preparados para a guerra com base em uma série de frases feitas sobre patriotismo tais como "A pátria é a família amplificada"(Rui Barbosa),ou "a árvore da liberdade deve ser revigorada de vez em quando com o sangue de patriotas: é seu fertilizante natural"(Thomas Jefferson). Julgo desnecessária e irrelevante este tipo de doutrinação. Soldados devem ser treinados para, profissionalmente defender seu país de agressões, venham de onde vierem, e ponto final. Infelizmente as forças armadas fazem uma confusão enorme quando se trata do verdadeiro papel de um exército e apelam para uma manipulação grosseira das consciências, aproveitando-se da fragilidade mental e da falta de criticidade de muitos dos rapazes e moças que ali estão, muitas vezes apenas em busca de um “ganha-pão” honrado e estável.

O patriotismo está sempre muito próximo do fanatismo, do fascismo. Não foi atoa que o auxiliar de Dunga o invocou quando da convocação para a Copa, visto que Jorginho é um fanático religioso. Devo dizer que torci contra a seleção brasileira exatamente porque não queria ver o triunfo dessa ideologia fanática e ditatorial implantada por Dunga e seu auxiliar. E, além disso, embora não seja muito fã de teorias conspiratórias, afirmei para muitos que esta Copa do Mundo não nos estava destinada porque em 2014 o Brasil é que sediará tal evento. Como perdemos uma copa aqui dentro (no Maracanã) em 1950 e isto deixou uma mágoa enorme, uma grande frustração em milhões de brasileiros, obviamente que, de jeito nenhum perderemos a copa de 2014. Não que ela já esteja “comprada”, mas porque com certeza, e há material humano para isto, será formada uma das melhores seleções de todos os tempos para ganhar em 2014. E, sem dúvida, há o componente econômico a conspirar contra nós. Seria extremamente prejudicial aos negócios milionários da FIFA que uma seleção (de país do Sul, diga-se de passagem) conquistasse a copa duas vezes seguida. E, para fechar a moldura, Ricardo Teixeira, presidente da CBF, candidato à presidência da FIFA, várias vezes afirmou "esta copa posso perder, o que não posso é perder a próxima". Meu amigo Ronaldo,um amante do futebol e que considero um expert no assunto, considerou coerentes minhas argumentações, embora tenha deixado claro que ainda acreditava que a seleção brasileira tivesse capacidade de ganhar esta copa visto que tudo, todos os selecionados estão nivelados por baixo. Ronaldo manteve suas esperanças, seu romantismo futebolístico que ontem esvaíram-se junto com a “segunda Era Dunga”, de forma lamentável e melancólica, diga-se de passagem.

Meu nacionalismo, minhas posturas de defesa do Brasil e da sua importância no mundo, da necessidade de acreditarmos em nosso país, da necessidade de fazermos nossa parte para construir um país melhor para as próximas gerações, da importância de investirmos no desenvolvimento e no crescimento econômico e social do Brasil não podem ser confundidas com patriotismo e/ou patriotada, pois na maioria das vezes tal postura se mostra equivocada e cobra um preço muito alto dos que nela acreditam, dos que por ela se deixam levar. É fácil confundir nacionalismo com patriotismo, mas é importante ressaltar que o amor à pátria leva sempre à exacerbações e à acriticidade, quase sempre com consequências funestas. O nacionalismo pressupõe a defesa crítica do seu grupo de origem, de sua nação, dos valores e da necessidade de se investir de forma justa no desenvolvimento daquele país em especial.

Ao longo de minha trajetória, sempre que algum tipo de politicagem adentrou o campo de futebol fui capaz de torcer sem problemas contra a seleção brasileira. Assim foi em 78 e 82, quando a Ditadura Militar, aproveitando-se da grave crise do país, usou a seleção para fazer os brasileiros se alienarem dos problemas que eles, militares, haviam causado ao Brasil. Não posso deixar de registrar que foi muito difícil, muito doloroso torcer contra a maravilhosa seleção de 82. Só não torci contra em 70 por que tinha apenas 9 anos e nada entendia de política. Ademais, aquela seleção era tão estupenda que de nada adiantaria minha torcida contrária. De 86 em diante sempre torci pela seleção. Mesmo quando da primeira “Era Dunga”, em 1990, quando perdemos o título de forma quase vergonhosa, eu estava lá torcendo pela nossa seleção, ainda que fosse um time bastante medíocre, como o foi a atual seleção. E olha que por gostar bastante de futebol, sou também um apaixonado pelo futebol-arte, pela beleza do espetáculo. Coisa que, no Brasil foi deixada para trás em 1986, como bem disse o ex-jogador Sócrates em um artigo recente. Sócrates afirmou ainda, que a partir daquele momento, os técnicos brasileiros passaram a privilegiar o modelo europeu de futebol-força em detrimento do futebol-arte que, tradicionalmente diferenciou o Brasil no cenário internacional. Não é por acaso que há tantos brasileiros jogando fora de nosso país. Isto se deve à excelência do futebol praticado por aqui.

Então, creio ter esclarecido minha posição. Minha extrema criticidade e minha mania de perfeição fazem com que, em muitos momentos eu nade contra a correnteza, mesmo sabendo que serei bastante criticado ou incompreendido, como ocorreu esta semana com minha colega Mariana que nomeou minha postura como de extremo “azedume”. Aliás, achei ótima a expressão, embora não tenha concordado com ela. Em 2014 serei, sem dúvida, um fervoroso torcedor da seleção brasileira de futebol, podem me cobrar.

sábado, 5 de junho de 2010

A Hidra paquistanesa

O Paquistão se localiza em uma área absolutamente estratégica, fazendo fronteira com o Irã, a Índia, a China e o Afeganistão. Inegável a importância político-econômica que Índia e China possuem atualmente. Inegável que o Irã, por suas jazidas monumentais de petróleo e sendo o único país do mundo com um governo Xiíta, cause comoção no mundo por qualquer atitude que tome. Inegável que o Afeganistão, encravado entre o Oriente Médio, o sul da Ásia e a Ásia Central, é motivo de interesse de quem aspira controlar a Grande Ásia.

Com cerca de 170 milhões de habitantes o Paquistão é o sexto país do mundo em população, embora sua área seja reduzida (881 mil km²). Quase cem por cento de sua população professa o Islamismo o que faz dele o segundo do mundo, perdendo apenas para a Indonésia. Outro aspecto importante a ressaltar é a multiplicidade de etnias que o compõem (panjabes, pashtus, sindis, seraikis, muhajires etc), além dos inúmeros grupos religiosos islâmicos. Somente estas poucas informações já seriam suficientes para se ter uma noção da diversidade, do mosaico que é o Paquistão. Há muito mais.

Quando a Índia anunciou possuir a bomba atômica em 1974, o Paquistão decidiu envidar todos os seus esforços para também se tornar uma potência nuclear. Neste sentido o momento de maior tensão entre os dois países ocorreu em maio de 1998 quando, provocativamente o governo ultranacionalista indiano realizou testes nucleares, levando o Paquistão a retaliar, fazendo o mesmo. Diante do temor de uma guerra nuclear o mundo instou os dois países a entrarem em acordo sobre o assunto, o que ocorreu em fevereiro de 1999, através do Memorando Lahore, segundo o qual se comprometiam a notificar-se com antecedência antes de novos testes nucleares.

Durante todo o período da Guerra Fria o Paquistão manteve uma aliança com os Estados Unidos, sendo bastante beneficiado pela superpotência, inclusive com o fornecimento de armas para as contendas com a Índia. Perdeu espaço com a potência quando se aliou ao Talibã no final dos anos 90, embora saibamos que os Talibãs só chegaram ao poder no Afeganistão graças à ajuda dos EUA. O problema é que, no poder, este grupo islâmico radical (sunita) se voltou contra os Estados Unidos.

O Paquistão só abandonaria os Talibãs após o 11 de setembro de 2001, devido às pressões dos EUA. Em função disso o território paquistanês tornou-se base de inúmeras operações do exército estadunidense contra a resistência afegã.

Porém os problemas começam aí. Parte significativa do exército do Paquistão não aceitou voltar-se contra os Talibãs, o que redundou em guarida no território paquistanês para muitos soldados talibãs e, possivelmente, para Osama Bin Laden enquanto os EUA o perseguiam no Afeganistão. Isto ocorreu pois há facções islâmicas dentro do exército paquistanês que odeiam os Estados Unidos. E aí está a origem dos problemas atuais do governo moderado paquistanês.

Muitos analistas internacionais acreditam que o Paquistão é o maior centro mundial de treinamento de terroristas no momento, devido à radicalização ocorrida nos últimos anos. Radicalização esta decorrente também do fato de que em 2006 o governo Bush assinou um acordo de cooperação nuclear com a arquiinimiga Índia, transformando-a em importante aliado na região. Em função disso, os campos de treinamento dos Talibãs dentro do Paquistão se ampliaram consideravelmente até chegar ao ponto de cidades inteiras terem sido tomadas.

As diversas milícias islâmicas que pululam no Paquistão não se dobram ao governo central, tem o apoio de importantes setores do exército e do próprio governo e odeiam profundamente os Estados Unidos. Além disso, a questão da Cachemira continua sem solução, constituindo-se em ponto de atrito importante com a Índia.

Importantíssimo finalizar falando do LeT, Lashkar-e-Taiba (Exército dos Puros), que teoricamente é o grupo radical defensor da integração total da Cachemira ao Paquistão. Ocorre que o LeT não se limita a atuar nesta questão. Sua ideologia é muito mais ampla pois defende a imposição de uma grande nação islâmica, tem total apoio dentro do Paquistão e vem ampliando suas bases de treinamento, bem como sua influência no mundo islâmico. Lutaram contra os soviéticos no Afeganistão, odeiam os Estados Unidos e foram os responsáveis pelo coordenadíssimo e inteligente ataque à cidade de Mumbai, na Índia em dezembro de 2008, além de terem usado armamento de última geração deixando 173 mortos e 308 feridos.

O que está bastante claro é que o Paquistão é o caldeirão mais fervente do radicalismo islâmico internacional. Tal como a Hidra de Lerna da mitologia grega, cujas cabeças regeneravam ao serem cortadas, os grupos radicais islâmicos se reproduzem com enorme facilidade no Paquistão de hoje. Infelizmente ainda não foi dada a devida atenção por parte do mundo a este problema -parece que não há nenhum Hércules disponível-, o que significa que muita coisa ainda vai piorar no cenário internacional nos próximos anos.